BOM DIA...

postado por nenealtro em 17/03/2009



Uma das coisas que eu sempre prezei foi ser bem interpretado. Isso desde o início de minha carreira artística, nos anos 80, quando tinha as bandas carregadas de ideologias, mas, principalmente, depois de meados dos 90, no Dance of Days, que é uma banda que tenta tratar de assuntos sérios, mas sob um prisma de sensibilidade poética. Às vezes acho que esse meu jeito complicado dificulta um pouco isso, mas eu tento. Juro que tento. Sei que muita gente se apropria de nossas músicas e faz com que cada uma tenha um sentido especial em sua vida, mas eu gosto muito quando sinto que as pessoas saibam o que uma obra minha significa pra mim.

Uma vez eu vi um quadrinho na MAD, quando eu era bem novo, que era super bem sacado. Era uma exposição de artes em que estava o escultor e um crítico, e o crítico fala que achava que a obra expressava isso e aquilo dentro de tal corrente artística e na verdade ele pensava: “parece uma galinha torta”. Aí o artista respondia que era exatamente isso, que representava uma nova fase em sua carreira e bla bla bla e pensava: “porcaria, eu tentei fazer uma galinha torta” hahahaha E no fundo é isso mesmo. Muita gente tenta ver uma obra de uma maneira hiper complicada, mas uma poesia não tem que ser um absurdo de complexa pra tocar no ponto.

Por exemplo, eu acho Horizontes de Outono muito clara pra mim, fala de alguém que tem uma paixão e que deixa sua confusão a afastar dessa paixão por medo, fala de perder o encanto, de arrependimentos. Acho que é uma das coisas mais bonitas que já escrevi. E por mais que tenha um sentido único pra mim, a paixão no caso pode ser por qualquer coisa e acho demais quando vejo outras interpretações que façam sentido sobre essa e outras músicas. E aí eu tenho agora A Dança Das Estações, que é simples, bonita, fala de vida, de coisas boas. E eu acho que tudo é relacionado. Horizontes, A Dança, tudo faz parte de um mesmo contexto e me permite essa coisa maravilhosa que é tocar no íntimo das pessoas.

Acho que nunca conseguiria fazer uma música que não dissesse nada. Que não me representasse nada. Minha relação com minha obra é tão profunda pra mim que tem músicas que eu fiz como desabafo, pra colocar coisas pra fora em certas fases de minha vida e que hoje me trazem sentimentos ruins quando toco, por isso tento ao máximo deixar fora dos shows. Mas são músicas que eu precisei fazer porque é só assim que eu sei aliviar algumas angústias. Muitas músicas eu escrevi de uma vez, sem corrigir uma palavra sequer, em poucos minutos, como A Valsa de Águas Vivas e Interlúdio Para Um Bar de Estrada. Eu sentia como se elas se pedissem pra saírem assim.

Interlúdio eu estava gravando e tinha uma letra completamente diferente, outro nome e tal. Eu estava lá no estúdio, estávamos gastando horrores por hora, mas eu pedi pra parar. Senti que algo não estava certo, que tinha alguma coisa errada. Aí saí do estúdio, sentei na sala de espera, pedi um tempo sozinho e escrevi tudo. De uma só vez e em menos de 15 minutos. Voltei e gravei tudo no primeiro take. Senti como se tivesse tirado um peso de dentro do estômago. Algo que estava lá fazia tempo. Por isso acrescentei o 33 Anos Fora do Mapa no título. Porque eu senti a vida inteira que precisava ter feito isso, ter falado sobre isso, e até aquele momento nunca tinha encontrado esse “bar de estrada”, essa válvula de escape em minha vida. E hoje você vê né, essa música é uma das mais importantes pros fãs da banda. Muita gente tem “pecado é não viver a vida" tatuado.

Enfim, eu acredito que para qualquer artista autêntico a sensibilidade seja um reflexo de uma alma bem angustiada. E a arte está em colocar essa angústia pra fora como uma necessidade vital mesmo, pra conseguir respirar. Eu, por exemplo, detesto 90% dos programas que passam na Tv pela manhã. Só tem crime, desgraça, gente ruim fazendo maldade. Aí geralmente eu saio, vou tomar um café, olhar pras pessoas que estão indo trabalhar, vou ver elas conversando, dando risada. Me deixa bem melhor do que acordar pensando que o mundo é um lugar ruim e que a gente precisa é da “polícia na rua”. Não que eu seja alienado, muito pelo contrário eu acho que a gente tem mesmo é que arregaçar as mangas e tentar fazer desse mundo um lugar mais legal pros nossos filhos, por isso gritei “Acordem Crianças!” em Insônia. Mas é legal ver que não tem só maldade por aí. Tem o estudante cheio de sonhos, a dona de casa saindo com pão do mercado, as crianças nas ruas...

E por falar nisso, é pra lá que eu vou agora.

Um bom dia para todos.

Força sempre!

Nenê Altro